Home Data de criação : 08/10/12 Última atualização : 09/02/15 21:38 / 45 Artigos publicados
 

Poética

E agora?!  (Poética) escrito em domingo 15 fevereiro 2009 21:38

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

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PROJETO DE PREFÁCIO  (Poética) escrito em segunda 19 janeiro 2009 23:19

Sábias agudezas... refinamentos... - não!

Nada disso encontrarás aqui.

Um poema não é para te distraíres como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.

Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe

Um poema não é também quando paras no fim, porque um verdadeiro poema continua sempre...

Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

 

Mario Quintana

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Encomenda  (Poética) escrito em sábado 10 janeiro 2009 23:27

Desejo uma fotografia

como esta – o senhor vê? – como esta:

em que para sempre me ria

com um vestido de eterna festa.

 

Como tenho a testa sombria,

derrame luz na minha testa.

Deixe esta ruga, que me empresta

um certo ar de sabedoria.

 

Não meta fundos de floresta

nem de arbitrárias fantasia...

Não... Neste espaço que resta,

ponha uma cadeira vazia.

 

 

Cecília Meireles, Antologia Poética

 

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Feliz Ano Novo !  (Poética) escrito em quarta 31 dezembro 2008 01:41

Desejo:

Conciência, paciência, esperança, alegria, vigor, humildade, clareza e nobreza, a todos que passaram por este blog e a aqueles que aqui fizeram morada (habitantes deste meu coração que mais parece um cortiço).

 

 

Walter 

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Oração do Milho  (Poética) escrito em sexta 19 dezembro 2008 21:35

Senhor, nada valho.

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das

lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,

nasce e cresce na terra descuidada.

Ponho folhas e haste, e se me ajudardes, Senhor,

mesmo planta de acaso, solitária,

dou espigas e devolvo em muitos grãos

o grão perdido inicial, salvo por milagre,

que a terra fecundou.

Sou a planta primária da lavoura.

Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo

e de mim não se faz o pão alvo universal.

O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem

lugar me foi dado nos altares.

Sou apenas o alimento forte e substancial dos que

trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.

Sou de origem obscura e de ascendência pobre,

alimento de rústicos e animais do jugo.

Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,

coroados de rosas e de espigas,

quando os hebreus iam em longas caravanas

buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,

quando Rute respigava cantando nas searas de Boaz

e Jesus abençoava os trigais maduros,

eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.

Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão

do eito.

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.

Sou a farinha econômica do proletário.

Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a

vida em terra estranha.

Alimento de porcos e do triste um de carga.

O que me planta não levanta comércio, nem avantaja

dinheiro.

Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.

Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.

Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que

amanhece.

Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.

Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,

que me fizeste necessário e humilde.

Sou o milho.

 

CORA CORALINA 

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